China! O que fazer tão longe? Para descobrir, montei o roteiro de uma viagem para lá em maio de 2013.
A China é um país de dimensões continentais, maior que o Brasil e passar 15 dias por lá é um sonho sendo realizado, mas não dá para desvendar tudo o que o país tem a oferecer. Portanto, decidi fazer um trajeto específico, pontilhado por alguns aspectos importantes: história imperial, cultural e algumas belezas naturais. No interior, o “eixo” escolhido é em torno da Rota da Seda, mais especificamente o Corredor de Hexi, a parte norte desta rota formada por alguns oásis e que atravessa a província de Gansu no sentido Noroeste-Sudeste, tendo mais de 1000 km.
As outras regiões da China pretendo visitar em outras oportunidades porque com tanta história e belezas naturais, o país merece ser explorado em detalhes.
Dias 1 a 6
Em Pequim – ou Beijing (北京) começa a viagem, com 5 dias para conhecer a cidade e me “aclimatar” com o modo de ser e viver da China e seu povo, também me preparando para encarar o remoto interior chinês, onde quase não há quem fale inglês. Mandarim – e dicionário/livrinho com frases para viajantes – a todo vapor. É bom dar uma estudada (é relativamente fácil) na pronúncia do pinyin, a versão fonética em alfabeto latino do Mandarim.
Em Beijing há várias atrações, indo de gastronômicas a históricas, passando por cultura e sociedade, que preenchem facilmente cinco dias, até porque um deles planejei dedicar exclusivamente a uma day-trip à Grande Muralha em um trecho mais afastado e isolado, evitando a grande quantidade de turistas que a visitam nos pontos mais próximos a Beijing. E ainda terei mais dois dias “extras” na cidade no final da viagem para completar alguma visita que faltou ser feita ou rever algum local que me pareceu interessante.
Com exceção do Palácio de Verão, que fica mais afastado do centro da capital chinesa, quase todas as principais atrações e monumentos ficam na região central, em um raio de até 5 quilômetros a partir da Cidade Proibida (na verdade a praça Tian’an men é o marco zero) e acessíveis rapidamente por metrô (baratíssimo) e táxis (relativamente baratos).
Como o albergue (reservado via Hostelworld) que escolhi ficar se localiza em um hútòng (região com as típicas ruelas estreitas formadas por várias casas de família que nelas moram por várias gerações, ou seja, por séculos), que é uma atração por si só; assim acabei unindo o útil ao agradável na hora da escolha, pois havia planejado visitar alguns hútòngs em Beijing. Desde a Revolução Cultural de 1949 estes hútòngs estão caminhando a passos largos para a extinção, pois a pressão do mercado imobiliário (e governo, na ânsia de modernizar a cidade) tem demolido vários quarteirões para darem lugar a largas avenidas e arranha-céus. Atualmente alguns hútòngs estão sob proteção governamental com o status de patrimônio histórico e atraem muitos turistas.
De Beijing, no final da manhã do sexto dia irei para Jiayuguan (嘉峪关市), uma pequena cidade (apenas ~230.000 habitantes) a cerca de 1.600 quilômetros de distância. Só há um voo por dia (e bem caro – CNY 1880 + CNY 180 em taxas), que faz uma escala de 50 minutos em Lanzhou. Veja o trajeto do voo na linha verde clara no mapa acima.
Em tempo: usei o Ctrip.com para fazer a reserva das passagens aéreas (e alguns hotéis) na China.
Jiayuguan é uma cidade que por séculos era o último local civilizado da China e dali em diante, em direção ao Deserto de Gobi, era terra habitada pelos exércitos de bárbaros (na verdade eram os mongóis – que causaram terror aos chineses por muitos séculos). Eis um dos motivos para ali ser a ponta mais ocidental da Grande Muralha da China, onde foi construído um forte no Passo de Jiayuguan (“guan” significa passagem em chinês, por isso o nome Jiayuguan), o ponto mais estreito entre duas cadeias de montanhas, com o Gobi ao norte e as Qilian ao sul. Este trecho da Muralha tem um detalhe interessante que o diferencia do restante da Grande Muralha que conhecemos e que é feita de pedras: foi construída em taipa, ou seja, argila e cascalho. Basicamente, separa o deserto da cidade e, além do forte, há postos de observação que eram usados pelos militares a serviço dos imperadores. Ah, e claro, a cidade era uma das paradas da Rota da Seda. Dos arredores de Jiayuguan há uma bela vista das montanhas Qilian.
Dias 7 a 10
No dia seguinte, após visitar alguns locais históricos em Jiayuguan (são poucos, mas muito interessantes) até o fim de tarde, embarco no trem e mantendo-me no trajeto da Rota da Seda, sigo (ver linha roxa no mapa) rumo a Zhangye (张掖), outra cidade pequena (para os padrões chineses, pois possui cerca de 1,2 milhão de habitantes). De Zhangye dá para visitar dois locais muito interessantes: o Danxia Landform Geopark, a cerca de 60km ao sudoeste de Zhangye. Para quem não sabe, são aquelas montanhas coloridas que às vezes vemos em algumas fotos (basta procurar no Google Imagens por “Danxia landforms”), de várias camadas que parecem que foram pintadas em linhas atravessando por sucessivas montanhas. O melhor horário para ir lá é por volta das 15h30, chegando 1 hora depois (de táxi) e usufruindo a melhor luz para deixar as cores bem evidentes. Se chover um pouco antes, as cores ficam mais saturadas e fica mais bonito ainda.
Um outro ponto interessante nos arredores de Zhangye é o Mati Si, ou Templo do Casco de Cavalo (nome baseado em uma lenda chinesa), um monastério budista encravado na montanha, com cavernas serpenteando pedra adentro e varandinhas em cada “janela”. As sacadas ficam praticamente penduradas para fora da rocha. Além de bonito é impressionante.
Em Zhangye no final do segundo dia é hora de pegar o trem noturno em uma jornada de 11 horas rumo a Tianshui (天水), a segunda maior cidade da província de Gansu e quase na divisa com a província de Shaanxi. Em Tianshui um dos pontos de interesse é as cavernas de Maiji Shan, um santuário budista escavado em uma pedra enorme (que de longe lembra um monte de feno – Maiji Shan) e possui mais de 7.000 esculturas budistas e murais espalhados pela “fachada” e em cavernas esculpidas dentro da pedra. E tudo isto começou a ser feito entre os Sécs. IV e V.
Dias 11 a 13
De Tianshui no fim de tarde é hora de rumar para Xi’an (西安), mais uma cidade carregada de história, pois foi (e é) uma das principais cidades da China – tendo mais de 3.100 anos e serviu de capital sob as dinastias mais importantes da história chinesa. Junto a toda essa bagagem ainda localiza-se na ponta oriental da Rota da Seda e também abriga os mais de 8 mil Guerreiros de Terracota. E até hoje a muralha da cidade está de pé e em bom estado, virando uma grande atração pedalar de bicicleta alugada por cima do largo muro (de quase 20 metros), sem contar as torres, pagodas e outras atrações históricas. Ou seja, bons motivos para passar 3 ou mais dias na cidade não faltam.
No 13º dia, em Xi’an embarco em voo noturno por volta das 21h e inicio a última perna do tour pela China, chegando a Beijing cerca de 2 horas depois, rumando direto para o hostel e dormir para aproveitar os dois próximos dias mais descansado.
Dias 14 e 15
Últimos dias em Beijing e na China. Ao menos serão dois dias “cheios”, pois terei manhã, tarde e noite destes dias disponíveis para dar umas voltas, (re)visitar atrações e fazer algum passeio que tenha deixado para depois. O voo de volta para o Brasil está previsto para as 23h55 do 15º dia.
Enfim, ir para a China é um pouco desafiador, principalmente pela barreira da língua para quem não é fluente em mandarim ou algum dialeto chinês, já que na China muitos habitantes não conseguem interpretar os caracteres ocidentais, tampouco falar e entender outra língua. Mas com planejamento, boa vontade e muita disposição para as surpresas que podem aparecer pelo caminho é bem possível viajar independentemente, sem ficar à mercê das empresas de tours organizados em grupos.
Para saber como as coisas funcionam, o way of life chinês e como chegar a algum lugar ou cidade, os fóruns de viajantes na internet são uma preciosa fonte de conhecimento, pois quase sempre são informações atuais (ao contrário dos guias de viagem, que são atualizados em intervalos de 1 ano na melhor das hipóteses), além de darem opiniões e sugestões para o seu roteiro, ajudando a deixar tudo redondinho.
Os principais fóruns que consultei são:
TripAdvisor (o mais completo, em inglês. Bom substituto para o Thorn Tree, do Lonely Planet)
Mochileiros.com (há boas informações na seção de roteiros e na seção de relatos de viagem)
Não irei prometer, mas pretendo fazer um post com mais detalhes das cidades que irei visitar, mostrando as atrações nas quais tenho interesse em conhecer e também mostrar como fiz para obter passagens de trem – que na China se esgotam rapidamente por ser um meio de transporte muito popular graças a uma malha ferroviária bem ampla e a preços razoáveis.